segunda-feira, 16 de julho de 2007

Despedida


Júlia e Laura voltaram chorando da festa de despedida de suas grandes amigas: Eleanor e Ruby. Depois de quatro anos morando aqui, as duas irmãs estão voltando para Oxford, na Inglaterra. Ruby, a mais nova, perguntou para sua mãe: "Quem é minha melhor amiga lá, mãe?"
Ela veio morar aqui quando tinha quatro anos. Fora a família, a menina não sabe exatamente quais são suas referências por lá. Eleanor guarda mais lembranças e não perdeu contato com as amigas inglesas. Catherine, a mãe das meninas, contou que a readaptação ao clima inglês será difícil. "Voltaremos a conviver com o céu sempre nublado." Matthews, o pai, morou por dois anos no Brasil quando pequeno. Não lembra nada do português, mas não esqueceu dos amigos.
Passamos lá no dia da partida, pouco antes que eles fossem para o aeroporto. A casa estava sem móveis. As crianças brincavam de se esconder atrás das malas. Depois, sentadas em roda no chão, uma delas propôs: "Quem consegue chorar?"
Todos se sentiram desafiados. As crianças espremeram os olhinhos, depois olharam para um ponto fixo qualquer e riram. Até que Camper, o único moleque da turma, conseguiu soltar algumas lágrimas. A brincadeira liberou as crianças para chorar sem vergonha.
Hora de ir. Abraços demorados. Ruby e Eleanor corriam na calçada acompanhando nosso carro, enquanto Júlia e Laura acenavam pela janela e diziam tchau até perder as meninas de vista.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Protetor de ouvido

L., alta, duas vezes eu. Fala rápido. Dirige, toma café e masca chiclete, tudo ao mesmo tempo. Há três anos voltou de Nova York. Trabalha o dia todo. O marido é músico. E ronca. Ela usa protetor de ouvido para dormir.
A. tem mais sorte. O marido não ronca. Ela ronca. Ele ainda não dorme com protetor de ouvido. Usa o cotovelo quando precisa.
C., inglesa, escreve livros didáticos. Está aqui quatro anos e prestes a voltar para Oxford. Tem loucura por antiguidades. Seu marido, que nem é tão antigo assim, ronca. Ela dorme com protetor de ouvido.
E eu? Gente, neste momento me dei conta de uma qualidade escondida de meu marido. O sujeito não ronca. Nem eu. Ainda.
Mas há outros motivos para usar os tais protetores.
T. e S., um casal brasileiro que mora aqui, alugavam um apartamento numa rua muito barulhenta, o que os obrigava a dormir com o tal protetor de ouvido.
Uma noite o barulho foi maior que a capacidade do protetor de proteger. O barulho continuava incomodando, e ela enfiava o treco mais para dentro do ouvido. Nada. Empurrava o treco de novo. Nada. Pela manhã o protetor tinha sumido. Ela e o marido tentaram puxar o troço. Nada. Foram ao pronto-socorro para que alguém resolvesse o caso. Levaram oito horas para tirar a coisa. Quase estouraram o tímpano dela.
Meu marido não ronca e moro no sossego do subúrbio. Eu estava quase me sentindo imune até um amigo contar que anda sofrendo com o barulho da natureza.
duas semanas ele acorda de madrugada com o canto do mesmo pássaro. É um tipo comum que vive por aqui. Vermelho, lindo e barulhento. Depois de observar um bocado o dito cujo, comprou um livro especializado no assunto. Sentava de pijama na janela, encarava o infeliz e até cantava para ele. Meu amigo estava obcecado, nem dava mais bom dia. Mal me via e começava a contar que horas o pássaro tinha tirado ele da cama, e imitava o bicho cantando. Desistiu de entender o pássaro vermelho. Aderiu ao protetor de ouvido, em prol de sua sanidade física e mental.
Nuca imaginei que o treco pudesse ser tão útil e popular.
Aqui vai mais uma dica. Além de ganhar dinheiro na faixa de pedestre para ser atropelado e ganhar indenização, abrir lojinha de protetor de ouvido pode ser um bom negócio na terra do Tio Sam.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

A bruxa


A bruxa está sentada na cadeira de balanço. Corcunda. Balança-se. Vincos ao redor da boca. As unhas dos pés longas e vermelhas não cabem na sandália. Uma menina de uns dois anos ri, a bruxa bufa:
-Dá papel pra ela desenhar!
É uma maneira delicada que a bruxa tem para mandar a criança calar a boca.
Ms. Maloney é o nome da bruxa, professora da nossa caçula. Este é um dia especial, antes das férias, em que os pais foram convidados a assistir a apresentação de seus filhos. Cada um vestido a caráter apresenta uma personalidade importante da história americana. Após algumas dicas, somos convidados a adivinhar a identidade do sujeito.
Um garoto vestido de aviador é logo identificado como um dos irmãos Wright, que eles consideram os pais da aviação. Minha vontade era levantar e dizer que eles não sabem de nada, que quem inventou o avião foi Santos Dumont e que a Ms. Moloney é uma bruxa. Mas claro que em vez disso aplaudi o garoto.
Laurinha foi incumbida de apresentar a história de Martin Luther King. Os cabelos escondendo o rosto, o texto na mão e a gravata do pai pendurada no pescoço, arrastando no chão. Deu uma risadela e ajustou o nó, fingindo ser o personagem. Os pais riram.
-- Hummm -- a bruxa pigarreou, indicando que ali não era lugar de brincadeira.
Laurinha fez sua apresentação em inglês fluente, ninguém diria que há pouco a pequena não falava necas da língua.
Depois fomos ao piquenique e à entrega de presentes para a bruxa. Uma das mães fez um discurso em nome de todos agradecendo o excelente ano em que nossas crias passaram sob as rédeas curtas da bruxa. Não aplaudi. Bruxa, bruxa, bruxa. Soube depois que essa mãe escolheu a bruxa para ser professora de seu filho porque o moleque é muito indisciplinado, só uma bruxa para controlá-lo. Pobrezinho, bruxa mãe, bruxa professora.

domingo, 3 de junho de 2007

Clube




Fomos à piscina. Assim que chegamos, as meninas dispararam num pinote para a água.
“PRRRIIIIIIIII!”
Era o apito do salva-vidas. De pé lá na sua cadeira, encarava minhas filhas com reprovação. Um casal de amigos americanos explicou. Aqui é tudo organizado. Por meia hora a piscina é toda dos adultos. Mesmo que não tenha adulto reivindicando a raia. Depois, outro apito anuncia que as crianças estão liberadas para entrar. Regras são regras. Ah, nem pense em correr em volta da piscina. O homem apita.
Deitada na espreguiçadeira, Júlia observava as crianças escondidas em biquínis parecidos com os que minha bisavó usava. Tímida, olhou para o próprio biquini e se enrolou envergonhada na toalha. Laura bufava, como se não aguentasse esperar a vez.
Para mim, estava difícil segurar os quilinhos a mais dentro do biquini brasileiro e evitar que fossem expostos em terra estrangeira. Lisa, a amiga americana, usava duas peças, bonitas e gigantes. Pela boa forma ela poderia até usar um biquini brasileiro. Comentei que eu estava me sentindo fora de lugar. Ela contou de uma amiga que aterrizou em pleno Rio de Janeiro atrás de seu biquinão. Sentiu o mesmo.
“PRRRIIIIIIIII!”
Era a vez das crianças. Splash! Mergulhei também para não continuar me sentindo fora d’água.

terça-feira, 22 de maio de 2007

Feira Internacional



Tem gente do mundo inteiro nesta cidade. Por isso as escolas promovem uma vez por ano uma Feira Internacional, para cada um mostrar o que seu país tem de bom.
Neste ano, na escola das minhas filhas estavam representados 15 países, dentre eles nós, Brasil com Z.
Fizemos painéis, escolhemos algumas músicas, artesanato e preparamos comes e bebes. Nossa barraca na feira ficou entre os chineses e os ingleses. De um lado, várias coisinhas "made in china" e cenas da festa do ano novo chinês eram exibidas na tela de um computador. Do outro, Harry Potter e os Beatles eram os abre-alas do país. Mas o povo não deu muita bola. Estavam mais interessados na comida.
Um americano se aproximou da nossa barraca. O filho encheu a boca de brigadeiro e apanhou várias paçocas, esmagando-as com as mãos descuidadas. O pai perguntou, de boca cheia:
“O Brasil fica na Antártica?”
Pouco depois, outro americano surgiu com a mesma pergunta.
E depois mais um.
O que a Antártica, cara pálida, tem a ver com a gente? Diz! O sujeito deve ter lido meus pensamentos, pois imediatamente apontou a garrafa do guaraná. “Guaraná Antártica”, como dizia o rótulo.
Logo chegou um amigo da nossa filha. Ele sabia localizar o Brasil no mapa e estava bem informado sobre a Floresta Amazônica. Júlia não ficou impressionada com a cultura do garoto. Assim que ele saiu, ela contou:
“Sabe o que ele me perguntou um dia? Se no Brasil a gente tem carros, se no Brasil as pessoas se vestem com folhas e se minha casa era feita com tronco de árvore.”
Os americanos, definitivamente, não são fãs do nosso futebol. O negócio deles é basquete.
Saldo final: Arremessaram todas as bolinhas de brigadeiro goela abaixo.

domingo, 13 de maio de 2007

Patrol



Quando sua filha não consegue dormir de emoção porque no dia seguinte ela poderá entrar na Patrol, a patrulha infantil que ajuda a manter a ordem no ônibus escolar, você pensa que talvez tenha chegado a hora de voltar. Quando você percebe que os olhos de sua cria ficam marejados cantando o hino americano na escola, ah, meus caros, é porque passou da hora de voltar.
Aqui as crianças têm que estudar ortografia com a lição de casa todos os dias. Mas elas adoram pôr a culpa em mim quando erram a grafia de alguma palavra na hora do ditado. Dizem que, com o meu sotaque, não conseguem entender nada!
Quer dizer, suas próprias filhas, que até então você ajudava com aquela superioridade dos adultos, ensinando tudo sobre a vida, começam a corrigir sua pronúncia de inglês na frente de todo mundo? É o fim!
Uma amiga contou que o filho outro dia puxou-a para um canto e pediu: “Mãe, vem cá. Não precisa falar inglês com meus amigos, tá?”
Tá o caramba! É impressionante como os pequenos são infinitamente mais capazes de aprender a melodia de uma nova língua e falar feito nativos do que nós, macacos velhos. Não conheço pais que falem inglês melhor que o filho. Os pais sempre ficam em desvantagem, enquanto os danados, completamente à vontade, aproveitam para desafiar a gente o tempo todo.
Acho que está na hora de voltar.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Balas perdidas

No ponto esperarando as meninas voltarem da escola, conversávamos sobre o massacre na Virgínia. A identidade do atirador ainda era desconhecida. Um dos pais que estava lá brincou:
“Parece que o cara era brasileiro. Hahaha.”
Tão engraçado que minha boca não mexeu nem naquele: “Rir para não morder.”
Coincidentemente, no mesmo dia, o Brasil estava na capa do jornal Washington Post. Uma imensa foto de um menino ilustrava a matéria sobre a violência nas favelas.
“Pois é, meu caro”, respondi. “O Brasil tem milhões de problemas para resolver. Mas este tipo de coisa, sujeito entrar matando a rodo em escolas, é típico daqui, não? Nos Estados Unidos tem bala mirada, no Brasil a gente sofre é de bala perdida.”
Ao lado, as três babás estavam a sofrer, em espanhol, de terra perdida:
“Podría vivir aquí toda mi vida, pero nunca, nunca podría parar a faltar mi país y el almuerzo de la família.”
“Oh, Chinita”, emendava a segunda, lamentando a falta do gosto de mamão papaya e da maneira de falar de sua gente.
Já Olguita, a terceira das mulheres, de tanta falta que sentia, nada falou. Mas enxugando o canto do olho, concordou com tudo. Colocou a mão no ombro da amiga e balançou a cabeça na cumplicidade de quem se reconhece como imigrante.
Acabei, eu também, perdida nas lembranças do meu país.