terça-feira, 27 de novembro de 2007

Domesticamente incapaz




A máquina de lavar roupas gritou ardido como sempre- PIIIIIIIIIIIIIIIIIII!- anunciando o fim de seu trabalho e o recomeço do meu. Lá fui eu para o "Ensaboa mulata, ensaboa". Era hora de arremessar as roupas da máquina de lavar para a máquina de secar, que fica ao lado. Abri a porta da máquina e encontrei , sentada dentro da máquina no meio das roupas, minha sogra. Sim, dentro da máquina tinha uma sogra. Veja bem, como se fosse muito natural estar ali, ela desembestou a falar, dando todo tipo de dica doméstica. Abandonei-a falando sozinha e fechei a porta da máquina. Ainda ouvindo sua voz ao fundo, cada vez mais fraca, abri os olhos.
Ufa. Mas as roupas se acumulando no cesto não eram sonho. Eram bem reais, não havia a menor chance de fugir delas. Mas antes, preguei na parede uma gravura que comprei por aqui. Tem o retrato de uma mulher de perfil, arrumada e olhando para o observador. Ao lado, os dizeres: "Domestically disabled".

Enquanto eu ouvia música no i-pod tentando transformar o momento ensaboa numa lúdica aula de dança, lembrei de uma amiga brasileira que mora por aqui há uns três anos. Ela queixava-se de saudade da terrinha. Do que ela mais sentia falta? "Empregada, né!"

Outra amiga contou que no tempo em que morou aqui jogou muita roupa no lixo. "É mais fácil e sai mais barato ." Encardiu, lixo.
E a adolescente que veio fazer intercambio! Quando soube que teria que se responsabilizar pelas roupas uma vez por semana, ligou chorando para os pais:"Esta família quer me escravizar! Preciso ir embora. É urgente. Manhêêê!"

O fato é que a sociedade americana tem um aparato gigantesco para ajudar as famílias a lidarem com as tarefas chatas, pois a maioria esmagadora dos americanos vive sem ter quem faça o trabalho de casa para eles. Aqui não se usa ferro, a roupa sai prontinha da máquina. Camisa? Manda para a lavanderia. Alho vem picado, cebola idem, salada lavada e por aí vai. Todos os supermercados funcionam também como restaurante por quilo. O pessoal se serve e come por lá mesmo. Come-se muito congelado e nheca para salvar tempo. Mal comecei a elaborar as causas da obesidade americana, quando uma amiga inglesa desmontou toda minha teoria. Na Inglaterra, ela contou, mesmo as famílias se virando sem empregada, ninguém abre mão de comer bem e obesidade não é um problema na terra de rainhas e princesas.

No fim de semana é comum as crianças ajudarem a tirar as folhas do outono caídas no quintal, enquanto os pais encaram o dia da faxina.
Quem prestar atenção aos seriados americanos, poderá ver Carmela, mulher do carismático e poderoso mafioso Toni Soprano, cozinhando e correndo cuidar da roupa quando a máquina apita.

É meus caros, nem tudo é glamour na terra do tio Sam

Ensaboa mulata, ensaboa
Ensaboa
Tô ensaboando...


domingo, 18 de novembro de 2007

Um País de Muitas Caras



O vôo padrão de São Paulo para Washington aterriza por aqui às 6:30 da manhã. No último sábado, lá estava eu aguardando amigos que chegariam num vôo com duas horas de atraso. Li os jornais, perambulei pelo aeroporto, e depois de tomar o terceiro café expresso, sentei. Um moleque quase tropeçou no meu pé enquanto corria pelos corredores. Logo atrás vinha seu pai tentando alcançá-lo e manter intacto o buquê de flores que equilibrava na mão. Atrás dele a mãe do garoto trajando uma saia laranja. Ao seu lado, a avó com um casaco amarelo, a tia, o tio e a bisavó também com roupas coloridas, seguiam o moleque. O único da família que permanecia sentado era o avô, segurando um outro buquê de flores e olhando atento para o portão de desembarque. Ele se levantou quando o vôo vindo da África aterrizou. Assim que o primeiro passageiro surgiu, o avô estava a postos para recebê-lo com abraços e flores. Quanto ao outro buquê, foi entregue quase sem flores, mas com muita festa. A família foi se afastando com os carrinhos abarrotados de malas. Desta vez era o visitante que brincava de correr atrás do moleque. Logo o saguão ficou silencioso. As cadeiras ao meu redor foram pouco a pouco ocupadas por orientais. Cada qual, sozinho ou no máximo em duplas, aguardava seus familiares. Vestiam-se com cores sóbrias: branco, preto ou cinza. Enquanto eu tentava distinguir se eram chineses, japoneses ou coreanos, passageiros começaram a aparecer no portão. Meus vizinhos de cadeira foram recebê-los com cumprimentos à distância, num abaixar e levantar do corpo. A ausência de barulho ou contato físico era plena de alegria . O nível da emoção do reencontro podia ser notado pelo aumento gradual na velocidade dos cumprimentos que trocavam. Observando as roupas, pescando pedaços de conversas, brinquei de adivinhar a nacionalidade das mais variadas pessoas que passaram por ali. Assim que o vôo vindo do Brasil aterrizou, troquei de lugar: Saí da cadeira, e de observadora e corri para o abraço.
O saguão daquele aeroporto era um pequeno retrato da diversidade de pessoas que convivem neste país.


domingo, 11 de novembro de 2007

Retrato de uma americana


M. é uma de nossas vizinhas americanas. Tem duas filhas, um cão Labrador, um emprego como médica que só lhe ocupa dois dias na semana, e N., o marido que é advogado e só folga no trabalho aos sábados. M. sempre tem alguma dica de médico, dentista, supermercado, e tudo o que você precisar. É coordenadora do voluntariado na classe das filhas na escola, leva as crianças aos jogos de futebol aos sábados- soccer mom- à dança às terças, às aulas de hebraico às quintas. Num fim de semana, às 8 da manhã, enquanto eu ainda estava aproveitando o sono dos justos, o telefone tocou. Era M. chamando:
- Eidrianaaa, good morning. It's beautiful outside!!!!!
M. Contou que levantou às 6 da manhã, terminou um trabalho, levou na casa de outro médico, arrumou a casa, e estava me convidando para caminhar com ela e seu cão labrador. No susto acabei topando. No caminho, ela contou:
- L.- o marido- nunca fala do trabalho comigo. Mas ontem, eu comentei do adolescente que fazia baby-sitter e descobriram que ele molestava as crianças. Aí, sabe o que N. me contou? Que ele, o meu marido veja bem, é o advogado de defesa do adolescente. Ele só me contou porque seu nome tinha aparecido no jornal e eu ficaria sabendo. Fiquei indignada! N. é contra a pena de morte.O que você acha?- M. e o cão olhavam para mim esperando uma resposta.
-Também não concordo com a pena de morte.-falei.
Não sei exatamente quem ela pensava que sou, mas certamente achava que eu faria eco ao o que ela acreditava. Surpresa, fez silêncio, mas logo quebrou:
-Tá vendo aquela casa ? Morei ali quando fazia faculdade. Nossa, a gente bebia muito. Morava um monte de estudante perto.
O cachorro fez cocô e M. tentou recolher. Não achou os vestígios e desistindo de se livrar da “nheca", perguntou:
-O que vocês no Brasil pensam de nós americanos?
Ó Deus, como evitar a “nheca agora”? O que responder?
- Bem- comecei- a gente acha que vocês têm muitas qualidades. Caso contrário, nunca teríamos mudado para cá. Mas têm algumas coisas que a gente não concorda. A guerra que o Bush começou e...
-Sabe- ela me interrompeu- minhas amigas e o N.- o marido- não concordam comigo. Não sei se você vai me entender. Depois do 11 de setembro eu mudei. Senti vulnerável, amendrontada e querendo proteger minhas filhas. Votei no Bush, achei que ele me daria mais segurança, você me entende?
Discordo completamente, embora possa entender.
Mesmo os americanos mais reacionários estão agora contra o Bush. Mas M. é a favor da pena de morte, e da guerra!!! Pensava, quando M. disse, mudando radicalmente de assunto:
-Quanto tempo vocês ainda ficam aqui nos Estados Unidos?
- Mais um ano e meio.-respondi
-Sabe, falei de você para uma amiga. É tão engraçado. A gente é de país diferente mas os problemas são tão parecidos: Como lidar com os filhos, com o trabalho, carreira, marido, lazer. Vou sentir muito sua falta quando vocês voltarem. Anyway, bye, see you tomorrow.
M. se despediu, sem deixar de dizer, como de costume:
-How it's beautiful outside, isn't it?
Fim da caminhada camarada.

sábado, 3 de novembro de 2007

E quem olha as crianças?


Quando o frio começa é difícil não sucumbir ao apelo do lar, cobertor e vinho. Mas se desistirmos de sair à noite em outubro, imagina em fevereiro? Além do frio, quem tem filhos e quer passear precisa desafiar o bolso e pagar uma baby-sitter com o taxímetro rodando alto.
Tivemos diferentes baby- sitters por aqui.
A primeira foi Cristina, uma estudante do Equador. Quando voltamos do passeio, as crianças dormiam e a baby-siter estava exausta de tanto dançar:
-A Laurinha me deu aula de samba- explicou Cristina- mas me disse que alguns passos eram difíceis de lembrar porque vocês estão longe do Brasil. Nossa, ela dança bem, né?
Enquanto eu ouvia a baby-siter, pensei: Desde quando a Laura dança, ainda mais samba?????
Às vezes vem a brasileira olhar as meninas para mim. Com essa a Laura nunca ousou dar aulas de samba. Teve um domingo que precisávamos de baby-sitter, mas é justamente o dia em que a brasileira frequenta a igreja. A moça foi gentil e até sugeriu levar as meninas com ela no "culto". Achei que não seria uma boa idéia, sabe por quê? Uma vez a Júlia foi na missa com a bisavó, numa pequena cidade do interior do Paraná. A pequena voltou dizendo que o teatro estava ótimo! Para confirmar, minha avó acrescentou que a Júlia gostou tanto que aplaudiu no final. Só ela, evidente. Achei melhor poupar a brasileira de pagar mico na igreja e acabei procurando outra baby-sitter.
Resolvi seguir o conselho do povo daqui: chamar alguma estudante que more bem perto e queira ganhar uma grana. Encontrei a adolescente que mora duas casas da nossa. Ela adorou a proposta, mas quase sempre tem festa nos mesmos dias em que precisamos dela.
Mas há alternativas à baby-sitter. Uma delas é mudar para cá trazendo alguém do Brasil. Outra é revezar com casais que têm filhos da mesma idade. Ou então, deixar as crianças se cuidarem por conta própria. Temos uma amiga que paga para o filho de 13 anos olhar o de 3 . A lei aqui permite que crianças a partir de 12 anos fiquem só e responsáveis pelos menores. E finalmente, claro, tem aqueles amigos queridos, brasileiros, veja bem, que vão passear com suas crias enquanto você corre pra um cinema.
É importante resistir a tentação de hibernar, achar alguém para olhar suas filhas, vestir um monte de casacos e desistir, ops, e se divertir!
Outra noite fomos assistir um amigo tocar em um Cabaré muito louco. O lugar tem um museu de esquisitices, circo de pulga, fotos da engolidora de espadas e bichos dentro de vidros. Dá de 10 no circo du Soleil!!!
Baby-sitter a gente encontra em qualquer lugar do mundo. Mas para falar a verdade, nada como ter por perto a delícia da casa e dos mimos da avó. Esta sim dá de 1.000 em qualquer baby-sitter que a gente encontre por aqui.

domingo, 14 de outubro de 2007

Halloween



Outubro por aqui é todo laranja, das folhas das árvores do outono às aboboras do Halloween. Para contribuir com a coloração da cidade e entrar no clima do Halloween, compramos duas abóboras . Depois, seguindo as instruções de um kit que vem com folhetos explicativos e várias ferramentas para ajudar, as meninas fizeram caras nas abóboras. Muitas cavocadas depois e uma completa "inhaca" pelo caminho, colocamos as abóboras em frente da nossa casa, com velas acesas dentro. A maravilha durou pouco. No quinto dia as caretas ficaram realmente assustadoras. Mosquitos nojentos passaram a habitar e a se alimentar das abóboras. Tivemos que jogá-las no lixo.

Assim que voltamos para casa e trancamos a porta a campanhia tocou. Mas não tinha ninguém. Provavelmente eram só os espíritos das abóboras revoltados com o fim precoce que demos à elas. Mas as crianças viram um pequeno embrulho no chão. Eram dois pacotinhos cheios de guloseimas e uma carta que começava com "Halloween Phantom Ghost". Em seguida explicava o que as meninas deveriam fazer:

1.Pregue esta carta em um lugar visível para que todos vejam que o fantasma já passou por aqui.
2. Faça duas cópias da carta e prepare dois pacotinhos de guloseimas.
3. Escolha dois amigos e deixe a carta e o pacote para eles.
4. Aja à noite, no escuro. Você não pode ser visto. Toque a campanhia e corra .
5. Você só tem um dia para agir, seja rapido.

Vestidas de preto e perucas compradas para o halloween, as meninas saíram para agir no escuro. Andavam nas pontas dos pés. As folhas secas caídas das árvores faziam um barulho alto e cracolento. A primeira casa foi a de Alexandro, um menino americano de 12 anos, que adora futebol e tem várias camisetas do time brasileiro. A segunda foi a de Cath, a menina de Taiwan. Cinco degrais separavam a calçada da campanhia:
- Blim-blom.- (sei lá como é o som de campainha em inglês!)
Mal Laurinha deu as costas para fugir, o barulho da porta abrindo fez a garota dar um pinote e se esconder com a irmã atrás da árvore. Viram Cath e o pai olhando para os lados a procura de quem teria deixado o pacote ali, mas não viram ninguém.
Hoje a carta de "Phantom Ghost" já estampa a frente de todas as casas em que moram crianças.
Faltam 10 dias para a festa de Halloween.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Vai de carro ou de coleira?


- O povo aqui é doidinho por cachorros - dizia a brasileira que limpa nossa casa uma vez por semana - Sabe o que eu vi outro dia? Um cachorro passeando dentro de um carrinho de nenê.
Limpou mais uma vez a janela e continuou:
- Êta mundo esquisito.
Mas sejamos justos, pensei, este tipo de veneração com os cães não é um traço de personalidade apenas dos americanos.

No dia seguinte, estava eu andando, quando vi uma mãe passeando com o filho na coleira. A coleira não prendia no pescoço do moleque, ficava nas costas, como uma mochila com carinha de bicho de pelúcia. Dava até uma certa liberdade para o garoto, que curioso de mundo nos seus prováveis dois anos, tentava correr e pegar tudo. A mãe conversava com uma amiga. A amiga carregava um cão branco e penteado, tão penteado que seus pelos estavam mais em ordem que meus cabelos. A conversa das mulheres parecia boa, pois a mãe da criança nem olhava para o filho, apenas puxava a coleira de vez em quando para brecar seu pirralho de estimação.

Voltando aos cães: Um casal de amigos resolveu comprar um cachorro. Assim que começaram a conviver os dois perceberam que três era de mais: O cão estragava as roupas, latia muito e era carente. Chamaram, então, um profissional para ajudar a educar o cachorro. Depois de meses de trabalho, e zero de mudança, o casal decidiu:
- Ao inferno com este bicho. Não o queremos mais.
O treinador contratado por eles acabou ficando com o cão, de pura pena.
Hoje o casal de amigos tem um filho. Embora o pequeno também dê trabalho, como todas as crianças do mundo- eles não querem devolvê-lo.

Mas tem gente que devolve filho. Há uns cinco anos atrás, um adolescente aqui nos EUA foi pego com drogas. O moleque era brasileiro, adotado por uma família americana desde criança. A lei local diz que se fez coisa errada, que seja devolvido para seu país de origem. Sem falar português e sem conhecer ninguém por lá, o moleque foi deportado para o Brasil.

Imagine se a moda pega: Seu filho fez chilique hoje? Devolve. Bateu no irmão? Devolve.
Falar em devolver, preciso parar agora de escrever. O pessoal do correio está na porta. Vou despachar minhas filhas para o Brasil e colocar uns cães no lugar...

sábado, 6 de outubro de 2007

Os Nove de Little Rock



Os Nove de Little Rock é como ficou conhecido aqui um grupo de estudantes negros que participou de um episódio central na luta pelos direitos civis na década de 60. O caso fez aniversário por esses dias e todo mundo voltou a falar nele.

O que os nove estudantes fizeram foi tentar entrar numa escola do Estado do Arkansas que só brancos frequentavam. Era parte de um projeto de integração gradual nas escolas, patrocinado pelo governo federal. Acontece que o povo lá não gostou nadinha da idéia. Os estudantes brancos e suas famílias fizeram uma barreira para impedir que os negros entrassem. O governador mandou a polícia para ajudar a reforçar a barreira. A repercussão foi tão grande que o presidente da época interviu, dando uma bronca no governador e mandando soldados para ajudar e proteger os estudantes negros. Depois de várias tentativas, enfim, os nove conseguiram entrar. Mas a polícia teve que ficar de guarda na escola durante todo o ano letivo para evitar que algo ruim acontecesse.
Quando viemos procurar uma casa para morar aqui, a dica foi: procurem onde estão as melhores escolas e morem por perto, porque as crianças serão encaminhadas para a escola mais próxima da sua casa.
O ensino público aqui segue os ideais americanos de igualdade e oportunidade para todos, as escolas públicas funcionam e têm qualidade. Mas nem tudo é perfeito. As escolas se mantêm com as taxas arrecadadas no bairro em que estão. Resultado: a qualidade depende da condição econômica de quem mora na região.
Sabem quantas crianças negras havia na escola particular que minhas filhas frequentavam no Brasil? Zero. Aqui já contei dúzias andando pelos corredores da escola.

Trabalhando com formação de educadores no Brasil, vi de perto os problemas do ensino público em São Paulo. O sinal para o recreio parece uma sirene de polícia. Os livros e os brinquedos ficam guardados em armários trancados. Algumas professoras deixam os pequenos o dia todo sem fazer nada, nem desenho, nem livro, nem brinquedo. Mas nunca vi os pais reclamarem e vários me disseram que, como não pagam pela escola, acham que os professores estão lá fazendo um favor ficando com seus filhos.