terça-feira, 9 de outubro de 2007

Vai de carro ou de coleira?


- O povo aqui é doidinho por cachorros - dizia a brasileira que limpa nossa casa uma vez por semana - Sabe o que eu vi outro dia? Um cachorro passeando dentro de um carrinho de nenê.
Limpou mais uma vez a janela e continuou:
- Êta mundo esquisito.
Mas sejamos justos, pensei, este tipo de veneração com os cães não é um traço de personalidade apenas dos americanos.

No dia seguinte, estava eu andando, quando vi uma mãe passeando com o filho na coleira. A coleira não prendia no pescoço do moleque, ficava nas costas, como uma mochila com carinha de bicho de pelúcia. Dava até uma certa liberdade para o garoto, que curioso de mundo nos seus prováveis dois anos, tentava correr e pegar tudo. A mãe conversava com uma amiga. A amiga carregava um cão branco e penteado, tão penteado que seus pelos estavam mais em ordem que meus cabelos. A conversa das mulheres parecia boa, pois a mãe da criança nem olhava para o filho, apenas puxava a coleira de vez em quando para brecar seu pirralho de estimação.

Voltando aos cães: Um casal de amigos resolveu comprar um cachorro. Assim que começaram a conviver os dois perceberam que três era de mais: O cão estragava as roupas, latia muito e era carente. Chamaram, então, um profissional para ajudar a educar o cachorro. Depois de meses de trabalho, e zero de mudança, o casal decidiu:
- Ao inferno com este bicho. Não o queremos mais.
O treinador contratado por eles acabou ficando com o cão, de pura pena.
Hoje o casal de amigos tem um filho. Embora o pequeno também dê trabalho, como todas as crianças do mundo- eles não querem devolvê-lo.

Mas tem gente que devolve filho. Há uns cinco anos atrás, um adolescente aqui nos EUA foi pego com drogas. O moleque era brasileiro, adotado por uma família americana desde criança. A lei local diz que se fez coisa errada, que seja devolvido para seu país de origem. Sem falar português e sem conhecer ninguém por lá, o moleque foi deportado para o Brasil.

Imagine se a moda pega: Seu filho fez chilique hoje? Devolve. Bateu no irmão? Devolve.
Falar em devolver, preciso parar agora de escrever. O pessoal do correio está na porta. Vou despachar minhas filhas para o Brasil e colocar uns cães no lugar...

sábado, 6 de outubro de 2007

Os Nove de Little Rock



Os Nove de Little Rock é como ficou conhecido aqui um grupo de estudantes negros que participou de um episódio central na luta pelos direitos civis na década de 60. O caso fez aniversário por esses dias e todo mundo voltou a falar nele.

O que os nove estudantes fizeram foi tentar entrar numa escola do Estado do Arkansas que só brancos frequentavam. Era parte de um projeto de integração gradual nas escolas, patrocinado pelo governo federal. Acontece que o povo lá não gostou nadinha da idéia. Os estudantes brancos e suas famílias fizeram uma barreira para impedir que os negros entrassem. O governador mandou a polícia para ajudar a reforçar a barreira. A repercussão foi tão grande que o presidente da época interviu, dando uma bronca no governador e mandando soldados para ajudar e proteger os estudantes negros. Depois de várias tentativas, enfim, os nove conseguiram entrar. Mas a polícia teve que ficar de guarda na escola durante todo o ano letivo para evitar que algo ruim acontecesse.
Quando viemos procurar uma casa para morar aqui, a dica foi: procurem onde estão as melhores escolas e morem por perto, porque as crianças serão encaminhadas para a escola mais próxima da sua casa.
O ensino público aqui segue os ideais americanos de igualdade e oportunidade para todos, as escolas públicas funcionam e têm qualidade. Mas nem tudo é perfeito. As escolas se mantêm com as taxas arrecadadas no bairro em que estão. Resultado: a qualidade depende da condição econômica de quem mora na região.
Sabem quantas crianças negras havia na escola particular que minhas filhas frequentavam no Brasil? Zero. Aqui já contei dúzias andando pelos corredores da escola.

Trabalhando com formação de educadores no Brasil, vi de perto os problemas do ensino público em São Paulo. O sinal para o recreio parece uma sirene de polícia. Os livros e os brinquedos ficam guardados em armários trancados. Algumas professoras deixam os pequenos o dia todo sem fazer nada, nem desenho, nem livro, nem brinquedo. Mas nunca vi os pais reclamarem e vários me disseram que, como não pagam pela escola, acham que os professores estão lá fazendo um favor ficando com seus filhos.


sábado, 22 de setembro de 2007

Guerra aos piolhos



Há muitas diferenças entre o Brasil e os Estados Unidos. Mas tem uma coisa que é absolutamente igual nos dois países.
Outro dia chegou uma carta de alerta da escola:
"Detectados casos de piolhos. Examinem a cabeça de seus filhos."
Piolho é igual em qualquer parte do mundo. Não faz distinção de raça, religião ou classe social. É um bicho politicamente correto. Mas tem que morrer mesmo assim.
Há tempos o remédio mais potente para matar piolhos era o Neucides, um veneno branco, feito o que usavam para exterminar baratas. Espalhava-se a coisa sobre o cabelo e em seguida amarrava-se um lenço ridículo para cobrir a cabeça. As crianças aguardavam enquanto os piolhos agonizavam ali embaixo do lenço. Era difícil aguentar. Os piolhos corriam na esperança de fugir, o que provocava uma coceira violenta. Depois, o cabelo das crianças era cortado bem curto. Para fingir que a razão do corte era mais nobre, a desculpa mais comum para os amigos era:
"Cortei para fortalecer meu cabelo."
Os piolhos vêm resistindo ao longo dos anos, mas felizmente os remédios têm evoluído bastante.
Os medicamentos mais modernos usam táticas parecidas com a do Bush na guerra do Iraque. A principal diferença é que eles funcionam e foram criados por um bom motivo.
Primeiro eles atacam os piolhos. Depois tem um frasco para acabar com as lêndeas, os ovinhos com os piolhos que ainda estão por nascer. O último canhão é um spray que espalha veneno pela casa toda.
Embora os piolhos sejam idênticos, cada país chama o bicho com nomes diferentes. Aqui o dito cujo é conhecido como "lice".
Aprendi o o nome do bicho logo no início da nossa experiência aqui. Eu estava esperando o ônibus escolar com as minhas filhas quando apareceu outra criança com a avó. A mulher perguntou se as meninas sentiam falta da família e dos amigos. Contei que minhas filhas tinham muita saudade dos cafunés da avó. Como eu não sabia dizer "cafuné" em inglês, mostrei o que era. A mulher entendeu tudo errado e se afastou com nojo da gente:
"Lices!"
Foi aí que o ônibus chegou. A mulher segurou a mão da neta e correu, antes que algum piolho voasse para a cabeça delas.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Homesick

O moleque de 13 anos ia fazer intercâmbio nos Estados Unidos . Olhou ainda pela janela à procura de seus amigos, dos irmãos, de seu pai, que estava orgulhoso dele, e de sua mãe.
A porta do avião fechou.
“ Apertem o cinto de segurança.”
O motor foi ligado. Ali ele se deu conta que ficaria seis meses longe de todos. Quis descer. Soltar o maldito cinto e sair gritando para o avião parar, que ele tinha mudado de idéia, melhor era ficar ali mesmo no dia seguinte tinha futebol. Enquanto isso, o avião acelerou até decolar. O frio na barriga foi tanto, mas tanto, que pra não sentir desepero de saudade o moleque decidiu que não pensaria nos queridos enquanto estivesse longe. E que nunca mais na vida faria um treco desse. Promessas que nunca cumpriu.
Uma amiga contou que suas filhas não viam a avó há seis meses. Quando a avó veio visitá-las, as meninas choraram muito. Só ali, enquanto abraçavam a avó, disseram, se deram conta do tamanho da saudade.
Como diz minha filha: “Se a gente pudesse importar os amigos e a família, morar aqui seria perfeito.”
Fomos para o Brasil de férias. Minha mãe estava com febre, um pouco mais cansada. Mesmo assim foi ao aeroporto se despedir de nós. Logo que atravessei a porta de vidro deixando-a para trás, senti como estas crianças.
Assim aprendemos na carne o significado da palavra homesick.
Mas pensando bem, tanto tempo convivendo dia e noite, já estava mesmo na hora de despedir. ..
Esse é o lado bom da distância.
Uma amiga contou que quando morou fora o filho sentia falta até do primo “insuportável”. Que longe virou o “primo mais legal do mundo.”
A distância é capaz de fazer milagres!!
Mas veja bem. Ouvi dizer que a distância perfeita da sogra é aquela nem tão perto que ela te visite todo dia, mas nem tão longe que tenha que se hospedar na sua casa.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Um ano na terra do Tio Sam




"Quem diria! Há um ano as meninas estavam aqui assustadas, esperando o ônibus para o primeiro dia de aula. Não falavam nem entendiam inglês. Agora não têm um pingo de sotaque."

Eu, com o mesmo velho e forte sotaque, concordava com os vizinhos.

No primeiro dia de aula é habitual que pais e mães acompanhem os filhotes até o ponto, munidos de filmadoras e máquinas fotográficas. Esqueci as minhas e fiquei só observando minhas filhas. Laurinha comemorava animada que estava livre da "Bruxa Maloney", a antiga professora. Mas agora ela tem que se enquadrar nas ordens da irmã. Júlia vibrava em seu primeiro dia como integrante da patrulha infantil que tenta manter a disciplina nos ônibus escolares aqui. Vestindo seu cinturão amarelo, um sorriso que estava impossível de controlar, Júlia agora é uma "patrol", como elas dizem. Imagina a vida da caçula tendo que acatar ordens da irmã mais velha?
Senti falta de Cathy. A garota de oito anos, com a camiseta sempre arrumadinha para dentro da calça, não pegará mais ônibus aqui. Voltou com a família para Taiwan, depois de quatro anos nos Estados Unidos. Deve estar lá, tendo que se virar para entender chinês e se readaptar a própria cultura.

A família veio à nossa casa se despedir no dia de partir. Como é costume deles, tiraram os sapatos antes de entrar. Estavam esbaforidos carregando vasos de plantas, um cachorro de pelúcia para as meninas lembrarem da Cathy e uma panela chinesa. Eu sou meio inábil com panelas, ainda mais uma cujas instruções de uso estão em chinês. Mas adorei os presentes e entendi o abraço que me deram. Eles se foram.

O ônibus apareceu. As crianças formaram a fila. Júlia, revestida da autoridade que conquistou, ajudou os pequenos a entrar, depois acenou para nós, toda cheia de si.

domingo, 26 de agosto de 2007

O país das Cidas


"Cida, quero leite."
Cida, como tantas outras, trabalha diariamente na casa de uma família brasileira. Cozinha, limpa, passa, cuida das crianças e leva a culpa quando algo na casa some:
"Cida, onde você colocou minha mochila?"
Até a pequena de três anos já sabe disto. Depois de bagunçar a sala com seus brinquedos, colocou a mão na cintura:
"Oia a bagunça que a Cida deixou!"
Um amigo contou que num final de semana a família se preparava para sair e o filho de 11 anos ainda estava descalço. Quando foi questionado, o menino rebateu :
"Mas ninguém me deu os sapatos, pô."
O garotão já beija as meninas na boca e vai ao cinema sozinho, mas se a "Cida" da sua casa está de folga, o tigrão mia... Pode?
Outra amiga contou que contratou uma motorista para trazer a filha e outras crianças da escola para casa. As crianças esticavam o pé de um jeito que quase acertavam a cabeça da mulher, que preferiu largar o emprego. Minha amiga teve que se virar e buscar as meninas na escola até acharem uma substituta:
"Agora sou a nova motorista", brincou.
"Você não precisa ser empregada, a gente tem dinheiro", a filha respondeu, acabando com a brincadeira.
Por aqui as "Cidas" ganham em média 100 dólares para trabalhar por quatro horas. Têm carro e casa própria e passeiam nos finais de semana. As famílias têm que dar conta de viver sem elas.
Para nós que estamos acostumados com a mordomia, é difíicil se adaptar no começo.
E não são só as Cidas. No Brasil, tem o frentista do posto para encher o tanque do carro, o moleque que carrega as compras do supermercado. Aqui, meus caros, pode estar nevando que você tem que se virar sozinho.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Despedida


Júlia e Laura voltaram chorando da festa de despedida de suas grandes amigas: Eleanor e Ruby. Depois de quatro anos morando aqui, as duas irmãs estão voltando para Oxford, na Inglaterra. Ruby, a mais nova, perguntou para sua mãe: "Quem é minha melhor amiga lá, mãe?"
Ela veio morar aqui quando tinha quatro anos. Fora a família, a menina não sabe exatamente quais são suas referências por lá. Eleanor guarda mais lembranças e não perdeu contato com as amigas inglesas. Catherine, a mãe das meninas, contou que a readaptação ao clima inglês será difícil. "Voltaremos a conviver com o céu sempre nublado." Matthews, o pai, morou por dois anos no Brasil quando pequeno. Não lembra nada do português, mas não esqueceu dos amigos.
Passamos lá no dia da partida, pouco antes que eles fossem para o aeroporto. A casa estava sem móveis. As crianças brincavam de se esconder atrás das malas. Depois, sentadas em roda no chão, uma delas propôs: "Quem consegue chorar?"
Todos se sentiram desafiados. As crianças espremeram os olhinhos, depois olharam para um ponto fixo qualquer e riram. Até que Camper, o único moleque da turma, conseguiu soltar algumas lágrimas. A brincadeira liberou as crianças para chorar sem vergonha.
Hora de ir. Abraços demorados. Ruby e Eleanor corriam na calçada acompanhando nosso carro, enquanto Júlia e Laura acenavam pela janela e diziam tchau até perder as meninas de vista.